Atire a primeira pedra quem nunca sonhou em se tomar habitante
de um lugar onde não houvesse exigências nem responsabilidades.
Lá o amor seria incondicional, todos os seres humanos seriam ilimitados,
bonitos, sem defeitos - e, principalmente, todos os desejos seriam
prontamente atendidos e satisfeitos. Esse lugar idealizado se
chama paraíso. Muitas doutrinas sociais, econômicas e religiosas
já foram formuladas com o objetivo de atingi-lo, seja neste mundo,
seja em uma existência futura. Agora uma nova promessa de paraíso
está seduzindo multidões. Em contraste com as utopias anteriores,
o acesso a esse mundo perfeito não depende de lutas políticas
nem de forças sobrenaturais. Basta ligar um computador. O Éden
de uma época dominada pela eletrônica só poderia ser obra da tecnologia
- a interney.
Por que será que a humanidade precisa da idéia do paraíso para
tornar mais suportável a existência terrena? Pode-se buscar uma
resposta nas situações emocionais que enfrentamos em nosso desenvolvimento.
Desde o nascimento, construímos nossa personalidade a partir de
uma série de experiências, a começar pelo contato entre o bebê
e a mãe e, depois, com o meio familiar e o grupo. Não é uma caminhada
fácil. O ser humano tem de lidar com angústias cruciais: a angústia
da sua finitude, ou seja, a morte; a angústia de saber que, para
satisfazer suas necessidades, precisa de outros indivíduos, independentes
de si; e a angústia de ver que muitos dos seus desejos não serão
satisfeitos como gostaria.
A cada momento, você revive e atualiza situações de conflito
em que todas essas angústias se fazem presentes. Para lidar com
elas, dispõe da sua mente, que fornecerá um sentido afetivo a
essas experiências e à sua própria existência. É dessa maneira
que o ser humano aprende a refletir sobre si mesmo. Outra maneira,
aparentemente mais fácil, de lidar com os sentimentos dolorosos
é imaginar o paraíso, um lugar onde a reflexão é desnecessária
porque só existe prazer.
Sabemos que é próprio do ser humano tentar controlar a percepção
e a consciência sobre o seu mundo interior, pois supõe que isso
é um fator de sofrimento psíquico. A modernidade oferece a internet,
entre outros meios, como um instrumento para fugir da dor de existir.
Ele entra em cena como um paraíso instantâneo onde qualquer um
pode se refugiar. A internet apresenta muitos benefícios ao possibilitar
a comunicação rápida e fácil, o intercâmbio entre diferentes culturas
e o acesso quase ilimitado às informações. Porém, quando é usada
como porta de entrada para o paraíso, ela empobrece o convívio
humano e o próprio indivíduo.
Hoje em dia, os jogos eletrônicos e a realidade virtual freqüentemente
substituem os espaços lúdicos interpessoais que possibilitam a
elaboração das emoções. Dessa maneira, a existência fica parecida
com um jogo onde a gente acerta ou erra, ganha ou perde. As experiências
humanas passam a ser regidas por dicotomias: certa ou errada,
boa ou má. Assim fica mais fácil controlá-las. O contato entre
dois seres humanos se dá por intermédio de máquinas, eliminando
toda a riqueza emocional da relação interpessoal.
No mundo virtual tudo pode. Não existem limites, finitude. Você
pode se apresentar tal como gostaria de ser visto. Também pode
se mostrar tal como o outro - o destinatário da comunicação -
supostamente gostaria que você fosse. A realidade virtual, assim,
toma-se uma dimensão onde se projeta a busca de satisfação. A
discriminação eu-outro fica debilitada. O outro passa a existir
como extensão de si mesmo - o outro que eu crio.
Dessa maneira, o mundo que verdadeiramente existe é substituído
pela realidade virtual e é percebido como se fosse ficção. As
diferenças se diluem, gerando um mundo sem problemas nem conflitos.
A realidade virtual ocupa o espaço da reflexão crítica que antes
ocorria no relacionamento interpessoal. Não há lugar, nesse universo
virtual ficcional, para os sentimentos de separação, de ausência
e de falta. O indivíduo consegue driblar a angústia do viver,
ao menos por um certo tempo, mas bloqueia o seu próprio desenvolvimento
emocional.
Sem a percepção da ausência do outro, a mente passa a funcionar
como se fosse músculo, na definição do psicanalista inglês Wilfred
Bion (1897-1979). Ou seja, o indivíduo reage aos estímulos automaticamente,
sem repercussão na esfera emocional. A mente perde a função de
operar sobre as experiências emocionais e a vida psíquica se iguala
ao funcionamento cerebral. A química presente no cérebro é quem
comandaria o mundo das emoções, e não mais a linguagem.
Para a Psicanálise, o pensamento só é possível na ausência do
outro. Para isso, é necessário que cada ser humano tolere suas
diferenças perante os demais, reconheça suas características humanas
e necessidades emocionais e possa se adequar à realidade para
obter experiências prazerosas. Ao imaginar que é possível viver
no paraíso da realidade virtual ficcional, o indivíduo se empobrece.
Desumaniza-se para não enfrentar a verdadeira experiência humana.
Instala-se num vazio que se perpetua e se auto-alimenta, trazendo
sentimentos de isolamento e de solidão. No meu ponto de vista,
o interesse em viver deveria estar ligado ao respeito pelas qualidades
constituintes do que significa estar vivo. Não é na relação com
uma máquina ou com um objeto inanimado que nós conseguiremos nos
desenvolver como pessoas, como sociedade e como cultura.
[A psicanalista Suely Gevertz, de 45 anos, é professora
no Instituto Sedes Sapíentiae
e membro da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo,
Atende pacientes em sua clinica há mais de dez anos e escreve
para diversas revistas.
E-mail: gevertz@osite.com.br]